terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sobre o 'Contágio Emocional' no Cinema a partir de A. Coplan


Em “Catching Characters’ Emotions: Emotional Contagion Responses to Narrative Fiction Films”, a professora de Filosofia Amy Coplan começa por alertar para o facto de, ao vermos um filme, experienciarmos o mesmo tipo de emoções que as personagens experienciam. Este tipo de ‘mimetismo’ (mimicry) é resultado do ‘contágio emocional’ (emotional contagion – EC), “um processo afetivo automático e involuntário que ocorre quando observamos outras experiências emotivas” (Coplan, 2006: 26; trad. minha). Tal contágio é um aspeto significativo do nosso envolvimento, enquanto espectadores, com os filmes e isto, essencialmente, por duas razões: 1) EC requer um compromisso sensorial direto e envolve processos automáticos, algo que não acontece, por exemplo, com as narrativas literárias; 2) EC não envolve crenças ou imaginação, apenas processos automáticos e involuntários que escapam ao controlo da consciência. Isto faz com que a experiência do contágio emocional do cinema seja praticamente igual à experiência real de contágio emocional (cf. ibidem). Aliás, os filmes podem até ser capazes de produzir um EC maior do que aquele que temos no quotidiano uma vez que o realizador possui um aparato de técnicas. Carl Plantinga, filósofo que Coplan refere no seu artigo, explicou algumas dessas técnicas aquando da sua discussão sobre a ‘scene of empathy’ – por exemplo, focar o rosto de uma personagem durante o período de tempo suficiente para chamar a atenção do espectador para a experiência emocional interior dessa mesma personagem (neste sentido, Coplan dá o exemplo da cena de abertura de Kill Bill 1, de Quentin Tarantino - ver imagem supra). Urge perguntar que ‘tempo suficiente’ é esse – um minuto? Vinte minutos? Uma hora? E será esse tempo igual para todos os espectadores? Será que os mecanismos de feedback são ativados em todos os seres humanos de igual forma?
Voltando à tese de Coplan sobre o EC, é importante anunciar que a mesma parece deveras interessante se atentarmos no facto de quase todos os grandes teóricos da corrente cognitiva sobre o cinema preocuparem-se com respostas 'mais sofisticadas' (a expressão é da autora) sobre a emoção nos filmes – respostas como a empatia, a simpatia, a simulação ou até a identificação imaginativa. Plantinga, por exemplo, sugere que o EC é um tipo de empatia ou uma parte da empatia. Não obstante, a empatia envolve cognição, até mesmo um certo sentido de realidade (‘cognitive sense of reality’). Diz Coplan que, quando um espectador sente empatia com uma personagem, ele também assume a perspetiva psicológica da personagem, o que inclui precisamente o tal sentido de realidade (cf. idem, 31). Mas, mais uma vez, o EC não envolve quaisquer pensamentos, crenças, julgamentos.
Segundo Coplan, os trabalhos sobre as emoções no espectador de cinema tendem a enfatizar o potencial educativo das reações emocionais. Não obstante, se, de facto, existem filmes que visam transmitir algum tipo de conhecimento (veja-se o género documental), há outros que não o fazem (ainda assim, será que um filme experimental como Study in Color and Black and White, de Stan Brakhage, serve apenas para ser visto e não pensado?). A autora de que aqui falamos acredita que, “de qualquer forma, o contágio emocional é melhor entendido como experiencial do que como instrutivo” (idem, 35; trad. minha). Para Coplan, o nosso compromisso com as ficções audiovisuais são mais afetivas e menos cognitivas do que o nosso compromisso emocional com ficções literárias. Nesse sentido, os filmes estão mais próximos da vida real do que a literatura. Será isto verdade?


Referência Bibliográfica: Coplan, A. (2006). Catching Characters’ Emotions: Emotional Contagion Responses to Narrative Fiction Film, Film Studies, 8, 26-38.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Globos de Ouro 2017 - Os Resultados



A entrega dos Globos de Ouro 2017 decorreu ontem à noite, em Los Angeles, numa cerimónia que ficou marcada pelo discurso anti Donald Trump de Meryl Streep, vencedora do prémio carreira Cecil B. DeMille, absolutamente merecido dado o percurso da atriz que mais nomeações recebeu, até hoje, para o Óscar de Melhor Atriz (desta vez, estava nomeada para Melhor Atriz em Comédia ou Musical com o filme Florence). O outro momento alto da noite foi, a meu ver, aquele em que Isabelle Huppert, profundamente emocionada, recebeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama, destronando a favorita ao prémio (Natalie Portman, por Jackie). Não obstante, La La Land: Melodia de Amor foi o grande vencedor da noite, arrebatando 7 estatuetas: Melhor Filme – Comédia ou Musical, Melhor Atriz – Comédia ou Musical (Emma Stone), Melhor Ator – Comédia ou Musical (Ryan Gosling), Melhor Realizador (Damien Chazelle, o realizador de Whiplash – Nos Limites, de 2014, sobre um jovem músico), Melhor Argumento (Damien Chazelle), Melhor Banda Sonora Original (Justin Hurwitz) e Melhor Canção Original (“City of Stars”). Na categoria de Melhor Filme – Drama, Moonlight, de Berry Jenkins, que conta a história de um jovem negro que se tenta conhecer e escapar ao mundo das drogas e da criminalidade, foi o vencedor. Já Elle, de Paul Verhoeven (já escrevi sobre este filme aqui, no blogue:http://lettersfromanunknownwoman2015.blogspot.pt/2016/12/elle-de-paul-verhoeven.html) arrecadou o prémio para Melhor Filme Estrangeiro (outro ‘bravo!’ para Huppert). O Globo de Ouro para Melhor Ator – Drama foi para Casey Affleck pelo seu brilhante desempenho no filme que estreou na passada quinta feira nas salas portuguesas Manchester by the Sea. Quanto aos atores secundários, Aaron Taylor Johnson venceu com Nocturnal Animals (Amy Adams, apesar de nomeada por Arrival, também tem um desempenho exuberante neste filme) e Viola Davis com Fences. Zootrópolis, realizado por Byron Howard e Rich Moore, foi o filme de animação galardoado.
Seguem-se os Óscares e as previsões já estão no IndieWire: http://www.indiewire.com/2016/12/2017-oscar-predictions-best-picture-1201687971/ 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Globos de Ouro 2017 - Os Nomeados

A 74º edição dos Globos de Ouro decorre esta noite, no Hotel Beverly Hilton, em Los Angeles. A cerimónia vai ser transmitida em direto, em Portugal, no canal Sic Caras, a partir da meia-noite. 

Nomeados para Melhor Filme - Drama estão: O Herói de Hacksaw Ridge, Hell or High Water, Lion, Manchester by the Sea e Moonlight. Para Melhor Atriz - Drama concorrem: Amy Adams, por Arrival, Jessica Chastain, por Miss Sloane, Isabelle Huppert, por Elle, Ruth Negga, por Loving e Natalie Portman, por Jackie. Já no que respeita ao Melhor Ator - Drama, estão na corrida Casey Affleck, por Manchester by the Sea, Joel Edgertin, por Loving, Andrew Garfield, por O Herói de Hacksaw Ridge, Viggo Mortensen, por Captain Fantastic e Denzel Washington, por Fences. No género Melhor Filme - Comédia ou Musical, os nomeados são: 20th Century Women, Deadpool, La La Land: Melodia de Amor, Florence e Sing Street. Para Melhor Atriz - Comédia ou Musical, estão nomeadas: Annette Bening, por 20th Century Women, Lily Collins, por Rules Don't Apply, Hailee Steinfield, por Edge of Seventeen, Emma Stone, por La La Land:  Melodia de Amor e Meryl Streep, por Florence. Para Melhor Ator - Comédia ou Musical, estão na corrida: Colin Farrell, por The Lobster, Ryan Gosling, por La La Land: Melodia de Amor, Hugh Grant, por Florence, Jonah Hill, por War Dogs e Ryan Reynolds, por Deadpool. Os nomeados para as restantes categorias estão disponíveis no blogue de Inês Santos, Hoje vi(vi) um filme, através do link http://hojeviviumfilme.blogspot.pt/2017/01/globos-de-ouro-2017-os-nomeados.html.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

"Amour" (2012)


"Anne: It's beautiful. / Georges: What? / Anne: Life. So long."


M/14 | 2h07 m. | Drama, Romance

Pontuação no Metascore: 94/100

Título original: Amour
Ano: 2012
Países: Áustria, França e Alemanha
Realizado por: Michael Haneke
Escrito por: Michael Haneke
Estrelado por: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert

Hoje, na RTP2, pelas 23h11. Um filme, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, sobre o amor, a velhice e a morte. Para ver e rever até porque parece já não haver amores assim.

"Le mystere Des Roches de Kador" (1912)


A obra Le mystere des Roches de Kador, de 1912, do realizador Léonce Perret, explora o caso de “Suzanne”, uma jovem que sofre de amnésia devido a um trauma. Por forma a tratar a sua paciente, o seu psicanalista, o "Professor Williams", desenvolve um novo método de psicoterapia com recurso ao cinematógrafo. O filme que é projetado reconstitui a situação que originou o trauma da rapariga, que passa de um estado catatónico a um estado de katharsis (veja-se o momento esteticamente sublime - ver supra - em que “Suzanne” se queda, de braços abertos, em frente ao projetor que a ilumina, que a limpa de tudo o que a assola). Estamos, pois, perante um passo gigante no que respeita ao reconhecimento dos efeitos psíquicos e até físicos que o cinema pode despoletar no espectador. Um passo que foi dado apenas 17 anos depois da invenção da sétima arte.

O filme completo segue infra:


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Festas Felizes!


"Every time you hear a bell ring, it means that some angel's just got his wings."

Nesta altura do ano, apetece rever e amar cada segundo de It's a Wonderful Life (1946), uma obra-prima que o cineasta Frank Capra nos ofereceu. Deixo aos meus queridos leitores o acesso ao filme, no Youtube, com os votos de umas festas muito felizes. Que 2017 seja um ano repleto de saúde, amor, paz e, claro, muitas, muitas imagens em movimento!



Sara Gonçalves

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

"Elle", de Paul Verhoeven


8,5 / 10

Drama, Thriller | 2h10 min. | M/16

Realização: Paul Verhoeven
Baseado no romance de: Philippe Djian
Países: França, Alemanha, Bélgica
Estrelado por: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny

Assistir a Elle é uma espécie de exercício de controlo de respiração. A obra de Verhoeven não nos dá espaço para distrações: o filme começa logo com uma cena de violação, o que contraria a tendência de muitos cineastas de oferecer o clímax das suas histórias a meio ou mesmo no fim das películas. É esse acontecimento que parece despoletar em "Michèle Leblanc" (Isabelle Huppert) uma vontade de vingança, muitas vezes camuflada pelo desejo sexual exasperante que a personagem revela ter. Não obstante, também parece legítimo perguntar se essa mesma vontade não estará antes vinculada ao seu pai, responsável por uma chacina no seu bairro? Ou à sua mãe que transparece futilidade? Ou ao seu filho que enveredou pelos caminhos da droga? Seja como for, Huppert é absolutamente maravilhosa. É fria e excitante, sofredora e forte, violenta e perspicaz, tudo ao mesmo tempo. Numa entrevista ao Ipsílon, que saiu no passado dia 18 de novembro de 2016, a atriz confessou mesmo que, durante as filmagens, teve a sensação de "estar completamente nua", porque a fronteira entre ela e o papel era "de tal forma ténue" que tudo parecia estar a acontecer perto de si. O mais incrível é que, apesar de termos consciência de que este filme é dela, da "Michèle" imoral, também sentimos espaço para questionar as razões das outras personagens. Creio que o principal objetivo de Verhoeven era precisamente oferecer aos espectadores uma obra onde a pergunta pelos motivos que conduziram à ação fosse constante. E está de parabéns, pois se há filme onde o 'porquê' surge é neste.


Deixo-vos aqui o trailer desta obra que merece realmente ser vista: