sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

"Confesso" (1953). Do Secretismo da Confissão.



M/12 | 1h35 min. | Crime, Drama, Film-Noir

Título original: I Confess
Realizado por: Alfred Hitchcock
Escrito por: George Tabori e William Archibald, adaptado da peça de Paul Anthelme
Estrelado por: Montgomery Clift, Anne Baxter, O. E. Hasse


"I never thought of the priesthood as offering a hiding place" ("Logan")

I Confess, de 1953, realizado pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock, à época proibido na Irlanda e mal recebido pela generalidade dos espectadores ingleses, é adaptado de uma peça francesa de Paul Anthelme, de 1902. Falamos de um filme bastante direto, com planos envolventes (como aquele que vemos supra) e despido de frivolidades. Já o mote do argumento, esse fica bem patente logo nos minutos iniciais da película: o psicologismo da confissão.
"I want to make a confession". É esta a frase, proferida por "Keller" (O. E. Hasse), um "faz-tudo" de uma paróquia do Quebeque, Canadá, que interrompe a calmaria noctívaga do "Padre Logan" (Montgomery Clift). Se, a princípio, acreditamos que "Keller" sente arrependimento pelo homicídio que acabou de cometer (a sua expressão fisionómica espelha medo e até algum desespero), depressa constatamos que a confissão que faz não passa, para si próprio, de um mero ato protocolar. Já para "Logan", a declaração acarreta um efeito possante - um dilema moral.
Levanta-se a questão: deverá "Logan" ser fiel ao segredo da confissão ou ao ideal de justiça humana? O mais interessante de I Confess é que a resposta à pergunta anterior não surge de forma simples e imediata, aliás, o problema em causa intensifica-se e torna-se de cariz pessoal: "Logan" acaba por se tornar o principal suspeito do assassinato em causa e tudo graças a um amor antigo de seu nome "Ruth" (Anne Baxte) - uma mulher, então casada, com quem continua a manter contacto (o defunto conhecia a relação de ambos e andava a chantageá-los, pelo que o Padre saiu a ganhar com a sua morte).
Pelo seu argumento e também pela sua montagem, torna-se quase impossível não nos envolvermos de uma forma extraordinária com este filme: a cada cena, a cada pergunta levantada pela polícia, a cada expressão, a cada afastar de lábios, ansiamos pela verdade e pela consequente absolvição de "Logan". Mas o Padre não o faz nem tão pouco deixa totalmente claro qual o motivo que pesa mais no seu consciente: se o sigilo divino, se o facto de ele próprio se sentir culpado.
Estamos perante um filme que espelha, de facto, uma situação de "transferência de culpa": "Logan" representa um "falso culpado" no que ao homicídio diz respeito; por outro lado, é um "culpado declarado" por ainda sentir algum desejo por "Ruth" (agora, o pecado já não é do pecador, mas de quem o absolve sem se conseguir absolver a si). E não precisa de o revelar por palavras. O seu rosto fechado fala por si.
Rostos fechados, silêncios ensurdecedores, crucifixos que relembram o voto de castidade e uma série de olhares curiosos - eis os aspetos que tornam esta obra de Hitchcock inesquecível. Uma das melhores do realizador britânico, confesso.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Manchester by the Sea (2016). Das Maravilhas do Sofrimento.



Pontuação: 8/10

M/14 | 2h17 min. | Drama

Realizado por: Kenneth Lonergan
Escrito por: Kenneth Lonergan
Estrelado por: Casey Affleck, Michelle Williams, Lucas Hedges


Associar ‘maravilhas’ ao verbo 'sofrer' soa estranho e provoca logo um sentimento um tanto ou quanto inusitado. Não obstante, não arranjei título melhor para a minha crítica a Manchester by the Sea: um filme que trata a perda, a dor, a ansiedade e até a redenção de uma forma tão cuidada que chega a ser... isso mesmo, maravilhosa.
Há uns anos, Matt Damon pediu a Kenneth Lonergan que escrevesse o argumento desta obra para, depois, se lançar no mundo da realização. O trabalho final que Lonergan apresentou impressionou de tal forma o ator que este acabou por lhe atribuir a realização do mesmo. Foi assim que nasceu Manchester by the Sea, a terceira longa-metragem de um homem que não se cansa de compelir os espectadores de cinema a lidar com a dimensão trágida da vida humana. Podes Contar Comigo (2000) – um drama familiar que gira em torno do reencontro entre dois irmãos que estiveram, durante anos, separados – e Margaret (2011) – sobre uma rapariga que, com um aceno, distraiu um motorista que acabou por atropelar uma mulher grávida – também nos colocaram frente a frente, tal como esta sua última obra coloca, com a morte e com problemas familiares difíceis de ultrapassar.
Não descurando o excelente trabalho de realização de Lonergan nem a parte técnica deste filme (sobretudo a sua fotografia, que oferece a neve e o mar de uma forma tão espantosa que quase conseguimos sentir o frio do inverno e a agitação marítima por debaixo dos nossos pés), é Casey Affleck quem, interpretando “Lee Chandler”, mais sobressai. Estamos perante um ator que revela uma capacidade incrível e non communis de inquietar o espectador que, não raras vezes, dá por si a perguntar coisas como “afinal, sobre o que é que ele está a pensar?” ou “o que é que ele está a sentir, neste exato instante?”. A sua prestação é de tal forma brilhante que nunca sabemos bem o que é que “Chandler” vai dizer ou fazer. Os seus momentos em silêncio, esses, angustiam-nos, sufocam-nos, emocionam-nos. E, com um argumento tão realista, tão duro, tão amargurado, era precisamente isso que se pretendia.
“Chandler” é aquele tipo revoltado que consegue facilmente começar à porrada num pub. Natural de Manchester e do seu mar, viu-se obrigado a mudar para Boston, onde tem uma vida profundamente taciturna, uma vida que pode, muito bem, ser encarada de duas formas: como fuga à obrigatoriedade de redenção que certas atitudes passadas impõem; ou enquanto redenção, per se. Acontece que o seu regresso ao lugar que dá nome a esta obra de Lonergan é exigido aquando da morte do seu irmão mais velho que, sem aviso prévio, o nomeou tutor de “Patrick” (é de ressalvar a excelente exibição de Lucas Hedges que se revelou, aqui, um ator bastante promissor), um adolescente que tem os seus amigos, as suas duas namoradas, a sua banda e toda uma vida que não está disposto a deixar, em Manchester.
É verdade que este drama gira em torno de “Lee Chandler”. Não obstante, não é menos verdade que, por ter partilhado os males do protagonista, a personagem “Randi Chandler” (interpretada por Michelle Williams) merecia um pouco mais de tempo no ecrã (a única conversa esclarecedora que decorre entre o ex-casal não satisfaz e, quando digo isto, não falo das performances dos atores, pois tanto Affleck como Williams são exímios).
De resto, estamos perante uma obra cinematográfica que merece, sem dúvida, estar na corrida aos Óscares (o filme está nomeado em 6 categorias, incluindo as de “Melhor Filme”, “Melhor Ator Principal” e “Melhor Realização”). E merece, sobretudo, pela sua quietude, que nos permite fugir um pouco da típica, célere e, por vezes, desenfreada Hollywood.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"Hidden Figures" (2016). Da Lua apenas Vislumbres.

Imagem retirada de: http://www.elle.com/culture/movies-tv/news/a40826/hidden-figures-trailer/


Pontuação: 6.5/10

M/12 | 2h07 | Biografia, Drama, História

Título original: Hidden Figures
Realizado por: Theodore Melfi
Escrito por: Allison Schroeder, Theodore Melfi; baseado na obra de Margot Lee Shetterly
Estrelado por: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner


West Virginia, final dos anos 50. Três mulheres, um polícia e um diálogo paupérrimo que adverte, sem demoras, o espectador: "atenção, nos próximos 120 minutos, vai ouvir falar de racismo". Mau grado os clichés que saem da boca de "Mary" (Janelle Monáe, a "Teresa" de Moonlight; non culpa pelas falas que lhe foram incumbidas), sentimos que é nosso dever dar oportunidade ao filme, que ainda agora começou. Mas o argumento é tão pobre que as expectativas acabam por se dissipar por completo. O que é uma pena, pois as três histórias de vida que servem de base a Hidden Figures tinham tudo para fazer deste um grande filme (contando que é sempre um enorme desafio realizar uma boa obra cinematográfica do género biográfico).
O título desta longa-metragem de Theodore Melfi teve origem nos "elementos secretos" que estiveram por detrás do lançamento de John Glenn para a órbita, um sonho que a nação americana augurava concretizar por forma a igualar e até superar a Rússia na corrida espacial: falamos de três mulheres que se destacaram, dentro da NASA (onde a segregação racial evidenciava-se nas casas de banho, nas chaleiras com café quente e, claro, nos próprios departamentos), devido à sua inteligência, perspicácia e coragem - "Katherine G. Johnson" (interpretada por Taraji P. Henson, nomeada uma única vez pela Academia, em 2009, para Melhor Atriz Secundária, com The Curious Case of Benjamin Button - O Estranho Caso de Benjamin Button, em português), "Dorothy Vaughan" (Octavia Spencer, vencedora de um Globo de Ouro e de um Óscar, em 2012, por The Help - As Serviçais) e a já referida "Mary Jackson". São precisamente as três atrizes que dão vida a estas personagens que fazem o filme valer a pena (o 6.5/10 é todo para elas). Apesar de Octavia Spencer ser a única das três a estar nomeada para um Óscar, este ano (o de "Melhor Atriz Secundária), é Taraji P. Henson quem mais sobressai (ela, sim, merecia a nomeação), nomeadamente quando, ao ser chamada à atenção pelo seu patrão "Al Harrison" (Kevin Costner) pelo tempo que passava fora do escritório, esta lhe grita, profundamente emocionada e indignada: "There are no colored bathrooms in this building, or any building outside the West Campus, which is half a mile away. Did you know that?".
A cena anterior faz com que sintamos, por segundos, aquilo que o filme de Melfi poderia ser, mas não é. A resposta que "Katherine" dá a "Al Harrison" quando este a questiona sobre a possibilidade de os americanos chegarem, um dia, à lua - "we're already there, sir"-, não pode ser a mesma que damos quando nos perguntamos sobre até onde é que este filme consegue ir. Hidden Figures apenas a vislumbra, numa ou noutra cena, e em tudo, repito, graças às performances das suas atrizes (aliás, foram essas - mais uma que as outras - que justificaram o Prémio do Sindicato dos Atores dos EUA).
As três inteligências da NASA mereciam, sem sombra de dúvida, melhor homenagem. 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

"Moonlight" (2016). Do Azul do Luar.



Pontuação: 8/10

M/16 | 1h51 m. | Drama

Realizado por: Barry Jenkins
Escrito por: Berry Jenkins; adaptado da peça de Tarell Alvin McCraney
Estrelado por: Mahershala Ali, Shariff Earp, Duan Sanderson, Naomie Harris


É praticamente impossível não irmos assistir a Moonlight carregados de elevadas expectativas. Com 264 nomeações e vencedor, até à data, de 102 prémios, o filme de Barry Jenkins pode vir a ser a grande estrela da próxima cerimónia dos Óscares. Se merece? Talvez. Se merece mais que os outros? Nem por isso.
O argumento deste filme está intrinsecamente ligado à história de vida dos seus criadores: primeiro, porque se baseia na peça de teatro In Moonlight Black Boys Look Blue, de Tarell Alvin McCraney, afro-americano e gay; segundo, porque o seu realizador Barry Jenkins (esta é apenas a sua segunda longa metragem), também afro-americano mas não gay, teve uma infância muito idêntica à da personagem central “Chiron”. Em entrevista à revista E, do Expresso, Jenkins confessou que também era pobre, tinha uma mãe perturbada e o primeiro amigo branco que teve foi aos 18 anos, quando já andava na universidade.
Mais do que qualquer elemento – fotografia, montagem, banda sonora (que não é nada má) – é a narrativa que faz com que este filme mereça ser visto. Dividido em três partes (com os títulos “Little”, “Chiron” e “Black”, que representam a fase da infância, a da adolescência e a da adultez de “Chiron”, interpretadas por Alex R. Hibbert,  Ashton Sanders e Trevante Rhodes, respetivamente), Moonlight assume-se como espelho da vida de um jovem que, desde pequeno, teve que aprender a lidar sozinho com uma mãe viciada em drogas (Naomie Harris aparece estrondosa como “Paula”), um pai ausente (especula-se que “Chiron” tenha sido fruto de um caso de uma noite só) e um bullying constante por parte dos seus colegas de escola. A compreensão e o companheirismo chegam apenas de três personagens que, não sendo família, revelam-se cruciais no seu processo de maturação: “Juan” (Mahershala Ali) e a sua esposa “Teresa” (Janelle Monáe) acabam por ser os pais que faltavam, e “Kevin” (Jaden Piner, Jharrel Jerome e André Holland) o único amigo e amor da vida de “Chiron”, aquele que o desperta para a sexualidade.
Moonlight tem sido muito aclamado por espelhar na tela a história de um negro gay, mas não é a primeira vez que isso acontece no cinema – basta recordarmos, por exemplo, Pariah, de 2011, realizado por Dee Res, sobre “Alike”, uma adolescente de cor que, à medida que vai crescendo, não sabe se deve expressar a sua verdadeira tendência sexual. Esta história não é, portanto, inédita, ao contrário do que se tem lido por aí. Além disso, também não é a primeira vez que um cineasta decide mostrar a evolução de alguém, nos seus diversos estágios (recordemos o oscarizado Boyhood que trouxe para o grande ecrã, em 2014, a evolução de uma família ao longo dos anos).
Posto isto, não podemos alegar que é a originalidade que faz de Moonlight o principal candidato ao Óscar de Melhor Filme, este ano. O que merece ser, realmente, apreciado nesta adaptação cinematográfica é a entrega e desempenho do seu elenco, bem como o realismo que subjaz a cada cena. Trata-se, de facto, de uma história bem contada, de tal forma que conseguimos sentir algumas vezes que, ao luar, os rapazes negros parecem mesmo azuis.
Moonlight, com o seu quê de positivo e de negativo, marca, sem dúvida, 2017. Aliás, Jenkins não podia ter trazido o filme em melhor altura. Afinal, como tem sido falado, parece haver uma vontade desmesurada, por parte da Academia, de pedir perdão pelos "Oscars so White" do ano passado. O que me entristece quando falo deste filme é a imagem que me surge, de forma imediata e sem a devida autorização, na mente: vejo Hollywood a mirar Moonlight e a exclamar "um filme só de negros? Veio mesmo a calhar!".
Termino com a esperança de que haja bom senso e rigor na entrega dos Óscares 2017. É disso que o mundo precisa. No cinema e fora dele.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

"O Clube" vs. "O Elefante". O cinema como lugar da adolescência.



A crítica de Pedro Mexia que aparece no livro Cinemateca, de 2013 (cf. pp.131-133), inspirou-me a revisitar dois filmes cujo foco é a adolescência. Apesar de terem o tema da narrativa em comum (e também um ritmo pausado), The Breakfast Club (em português: O Clube), de 1985, e Elephant (em português: Elefante), de 2003, não podiam ser mais diferentes: se o primeiro, realizado por John Hughes, concentra a ação numa biblioteca onde estão cinco estudantes, a um sábado, de castigo, o segundo, de Gus Van Sant, mostra um dia aparentemente comum na vida dos jovens de uma escola secundária de Portland.
Se na obra de Hughes as personagens acabam por deixar cair as suas máscaras - muito devido ao facto de terem de escrever um texto sobre aquilo que são -, no drama de Van Sant a dissimulação estabelece-se quase até ao fim. Estamos, efetivamente, perante dois retratos do que é a passagem pela adolescência: um misto de paixão, ousadia, medo, saúde, patologia, catástrofes vulgares que merecem que percamos tempo a entendê-las para que o nosso humanismo se enriqueça. Não obstante, as imagens de Elephant atingem-nos com uma maior dureza e brutalidade. É verdade que em The Breakfast Club também estão presentes o tédio e a conflitualidade, mas Hughes não os revela como perigosos (aliás, até os faz aparecer como possíveis potenciadores de diálogo, de compreensão e de reconhecimento - "os problemas dos outros são, afinal, os meus problemas"); já Van Sant faz com que estejamos sempre à espera do pior: a cena dos dois estudantes que colecionam armas e que aguardam a chegada de uma metralhadora causa-nos constantes calafrios. Quase sentimos que, tal como os estudantes daquela escola secundária, também devemos fugir. Fugir para bem longe (infelizmente, as vítimas do Massacre de Columbine, ocorrido em abril de 1999 e no qual se baseia esta obra, não tiveram opção de escolha. Resta-lhes a homenagem que este filme presta).
Escreve Mexia que "vinte anos depois, em Elefante, de Gus Van Sant, o liceu torna-se um ascético travelling de frustrações e sadismo, mas O Clube ainda vive de uma energia optimista sobre o companheirismo e a mudança" (Mexia, 2013: 133). Do primeiro retiramos uma lição: a de que há atos para os quais pura e simplesmente não existe uma explicação lógica. Do segundo extraímos esperança e até um certo saudosismo (quase nos apetece voltar à idade dos 'porquês').

Referência bibliográfica: Mexia, Pedro (2013). "Não te esqueças de mim". In Cinemateca, (pp.131-133). Lisboa: Tinta da China.

Curso Intensivo "Filosofia & Cinema", Universidade do Minho



Informações sobre o curso intensivo "Filosofia & Cinema: Confluências Estéticas e Éticas na Imagem em Movimento":

Duração do curso: N.º total de horas: 20 horas
Horário: Terças e quintas, das 14h00 às 16h00
Local: Sala de Mestrados do Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho (Braga)
Formadora: Mestre Sara Gonçalves
Prazo de inscrição: 1 a 24 fevereiro 2017
Local de inscrição: Secretaria do ILCH (U.Minho)
Preço: 25 euros (com direito a certificado)


Programa (detalhado):

Sessão 1 – 07 de março de 2017

- Apresentação do curso, da formadora e dos participantes;
- Distribuição do programa e da bibliografia recomendada;
- Introdução à história do cinema: pré-cinema; o cinema dos irmãos Lumière e de George Méliès; o início de Hollywood; o género western (Porter e o primeiro cowboy); os “Big Four” (Chaplin, Pickford, Fairbanks e Griffith); a comédia americana (Chaplin versus Keaton); o cinema soviético dos anos 20 (Eisenstein, Pudovkin); o impressionismo (Gance, Clair, Renoir, Vigo) e o abstracionismo (Duchamp, Dulac) na França.


Sessão 2 – 09 de março de 2017

- Continuação da história do cinema: o nascimento do cinema sonoro (Don Juan e The Jazz Singer); o Hays Code; a década de 40 americana (Welles, Curtiz, Capra, Ford); a Nouvelle Vague (Truffaut, Godard, Resnais, Rivette, Rohmer); o movimento dos Angry Young Men; a década de 50 italiana (Antonioni e Fellini); o suspense britânico (Hitchcock); a ascensão do cinema japonês com “O Mestre” (Kurosawa); a “Nova Hollywood” dos anos 70 (Coppola, Scorsese, Spielberg, Lucas, De Palma); o fantástico romântico, psicológico ou poético de 80 (Lynch); a era do cinema digital.


Sessão 3 – 14 de março de 2017

Sessão especial sobre dois dos grandes movimentos da história da sétima arte:

- o expressionismo alemão (Murnau, Wienne), por Mestre António Cruz Mendes;
- o neorrealismo italiano (Visconti, Rossellini), por Dr. José Amaro.


Sessão 4 – 16 de março de 2017

- Pensar filosoficamente o cinema enquanto arte: introdução às teorias essencialistas sobre a ontologia da imagem em movimento;
- Esclarecimento de alguns conceitos/expressões vinculados/as à arte cinematográfica: “representação contrafactual natural” versus “intencional” (a partir de Blow Up, 1966, de Michelangelo Antonioni); “olho humano”, “tempo” e “espaço”;
- O ilusionismo / fantasismo de Rudolf Arnheim – A Forma do Filme (com visionamento de algumas cenas de The Docks of New York, 1928, de Josef von Sternberg).


Sessão 5 – 21 de março de 2017

- O realismo de André Bazin - Qu est-ce que le cinema? (com visionamento de algumas cenas de Ladri di Biciclette, 1948, de Vittorio de Sica);
- A crítica de Ian C. Jarvie às teorias essencialistas sobre a ontologia da imagem em movimento – “Qual é o Problema da Teoria do Cinema?”;
- Uma alternativa não essencialista: as cinco condições propostas por Noël Carroll para identificar a imagem em movimento – “Defining the Moving Image”.


Sessão 6 – 23 de março de 2017

- Introdução à ética: a ética enquanto disciplina filosófica; as questões que a ética levanta; as dificuldades e os problemas centrais da ética; as três fontes fundamentais do pensamento ético do Ocidente (Grécia, Cristianismo e Iluminismo);
- A dimensão moral da existência: ‘moral’, ‘imoral’ ou ‘amoral’;
- Reflexão sobre alguns tipos de ética: deontológica (Kant), teleológica (Mill), emotivismo ético (Hume);
- Introdução à perspetiva do “particularismo moral”.


Sessão 7 – 28 de março de 2017

- A relação entre a arte e a moral: autonomismo, eticismo e imoralismo – apresentação e discussão das várias posições a partir das reflexões de Noël Carroll em “Art, Narrative and Moral Understanding” e de Matthew Kieran em “Art, Morality and Ethics: On the (Im)Moral Character of Art Works and Inter-Relations to Artistic Value”;
- O papel do realizador de cinema: mecanismos para impressionar e/ou moldar o espectador – “Efeito Kulechov”; o tempo, o ritmo e a tensão a partir de algumas cenas de Potomok Chingis-Khana (Tempestade na Ásia), 1928, de Vsevolod Pudovkin; o tamanho da imagem a partir de uma cena de The Birds, 1963, de Alfred Hitchcock.


Sessão 8 – 30 de março de 2017

- O papel do espectador de cinema: mecanismos de perceção do espectador (sujeito passivo ou ativo?; a importância dos escritos “O Cético”, de Hume, e “A Doutrina das Cores”, de Goethe, na análise do papel do observador); o reconhecimento dos efeitos psicofísicos que o cinema pode despoletar no espectador a partir do filme Le mystere des Roches de Kador, 1912, de Léonce Perret;
- A importância do contágio emocional na experiência cinematográfica, segundo Amy Coplan – “Catching Characters’ Emotions: Emotional Contagion Responses to Narrative Fiction Film”;
- O “paradoxo da ficção” e as suas três proposições – algumas soluções discutidas por Jerrold Levinson em “Emotion in Response to Art”.


Sessão 9 – 4 de abril de 2017

- “Devemos encarar a estética e a moralidade do filme como esferas autónomas ou será sempre necessário estabelecer uma relação entre as duas numa obra cinematográfica?” – debate sobre a relação entre a estética e a ética do filme a partir do visionamento de algumas cenas de: Triumph des Willens, 1935, Leni Riefenstahl; Pickpocket, 1959, de Robert Bresson; Lilith, 1964, de Robert Rossen; Empire, 1964, Andy Warhol; Study in Color and Black and White, 1993, de Stan Brakhage.


Sessão 10 – 6 de abril de 2017

Sessão especial sobre o cinema enquanto instrumento expositivo-pedagógico à Filosofia:

- a problemática da fé no cinema (Bergman, Dreyer, Tarkovsky), por Mestre Tiago Cerejeira Fontes.


Agradeço, desde já, a colaboração de: Departamento de Filosofia da Universidade do Minho | Doutor Vítor Moura | Doutor Bernhard Sylla | Mestre António Cruz Mendes | Mestre Tiago Cerejeira Fontes | Dr. José Amaro


Para mais informações, contactar:
sara.goncalves@ilch.uminho.pt
helenaa@ilch.uminho.pt
Telefone: 253601641 | Fax: 253601669

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

"Lion" (2016) - Do eterno retorno a casa.



Pontuação: 7/10


M/12 | 1H58m. | Drama

Título original: Lion
Realizado por: Garth Davis
Escrito por: Saroo Brierley. Adaptado da obra A Long Way Home, de Luke Davies
Estrelado por: Dev Patel, Nicole Kidman, Rooney Mara

Lion foi dos primeiros filmes nomeados para os Óscares 2017 a estrear nas salas de cinema portuguesas. É um drama que, antes de ser ficcionado, foi real. O que este filme conta é a história de vida de um menino que, em 1986, se perdeu da sua pobre, mas jucunda família. Entrando num comboio que estava parado na estação onde o irmão lhe pediu que aguardasse, o pequeno “Saroo” (interpretado, numa primeira parte, por Sunny Pawar) adormeceu e, quando acordou, já estava longe. Perdido em Calcutá, a 1500 quilómetros da sua mãe, o rapaz de 5 anos tentou pedir ajuda a pessoas com quem se cruzava, mas o auxílio revelou-se inócuo. “Saroo” não conseguia pronunciar corretamente o nome da sua terra.
Garth Davis construiu inteligentemente as cenas que antecedem a adoção de “Saroo”. Arriscaria mesmo dizer que conseguiu produzir o efeito pretendido no espectador: o brotar de uma enorme empatia pela personagem que, avidamente, tenta sobreviver num ambiente urbano desconhecido. É quase impossível não nos sentirmos enternecidos com o frágil e, ao mesmo tempo, desenrascado “Saroo” (é que, para além das suas expressões faciais e das suas atitudes, nós temos a consciência de que estamos a assistir a uma luta que ocorreu, de facto).
Se no que respeita às emoções Lion cumpriu, o mesmo se pode dizer da sua fotografia - quão belas são as imagens da viagem de comboio! - e da sua banda sonora (ambas na corrida ao Óscar), bem como de Nicole Kidman (também nomeada pela Academia para a categoria de Melhor Atriz Secundária, com este filme), que desempenha o papel de “Sue Brierley”, a mãe adotiva de “Saroo”, uma mulher que transpira amor e cuidado por todos os poros. Aliás, neste filme, o amor de mãe chegava. O romance sem qualquer fulgor entre o já adulto “Saroo” (Dev Patel) e “Lucy” (Rooney Mara) acrescenta um único elemento a esta história: agastamento. E esse dispensava-se.
Não me parece que Lion vá ganhar qualquer Óscar no próximo dia 26, mas conseguiu 6 nomeações (incluíndo, para além das supra mencionadas, a de Melhor Filme) e presenteou-nos com uma mensagem que não deve ser desprezada: a verdade é que, por melhor que estejamos, no final, há sempre qualquer coisa que nos faz regressar a casa.